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terça-feira, 4 de novembro de 2014

SOM, LUZ E A EXPERIÊNCIA TÁTIL: CARTOGRAFIAS POSSÍVEIS DA DIMENSÃO (IN)VISÍVEL DA ARQUITETURA E DO URBANISMO E SUAS MARCAS NUM CORPO


[por Rodrigo Gonçalves]

Escuto. Vejo. Sinto com as mãos. Compartilho da noção de corpo que Merleau-Ponty aponta em seu livro Fenomenologia da Percepção. Trata-se de nosso próprio corpo tal como o experimentamos, de dentro, um corpo que se ergue em direção ao mundo. É o corpo considerado como particularmente nosso, ou seja, quando importa saber sobre o corpo de quem estamos falando. Assim, não posso encarar meu próprio corpo de maneira distanciada e puramente objetiva e na terceira pessoa, como se fosse apenas um exemplo de corpo humano. É meu corpo, aquele por meio do qual meus pensamentos e sentimentos entram em contato com os objetos. É assim que um mundo existe para mim: um corpo em primeira pessoa, o sujeito da experiência. Não faço contato com o mundo apenas pensando sobre ele. Eu experimemto o mundo com os sentidos, agindo sobre ele por meio da mais sofisticada tecnologia até os movimentos mais prmitivos, tendo sobre eles sentimentos que me dão uma gama de complexidade e sutileza. Entendo que enquanto massa de dados táteis, labirínticos, cinestésicos, nosso corpo não tem mais orientação definida do que outros conteúdos. Esta orientação nos chega do nível geral da experiência, pois, por exemplo, se me concentrar apenas no campo visual tal concentração pode impor uma orientação que não é a do corpo. Sinto, desta maneira, um entrelaçamento do corpo com o espaço. O poder de mudar de nível e de compreender o espaço vem com a “posse” de um corpo, assim como a “posse” da voz traz consigo o poder de mudar de tom. Lanço-me sem muitos pudores às relações orgânicas entre o sujeito e o espaço, sabendo que pode ser nesse poder do sujeito sobre seu mundo a origem do espaço. Neste lançamento sou amparado num outro entrelaçamento. Neste novo entrelaçamento, o do espaço com a percepção, reparo que, em geral, o espaço e a percepção indicam no interior do sujeito o fato de seu nascimento – a contribuição perpétua de sua corporeidade – ser uma   comunicação com o mundo mais velha que o pensamento. Assinala-se, desta maneira, que a percepção é a iniciação ao mundo e que não podemos colocar nela as relações objetivas que em seu nível ainda não estão constituídas. Assim, delineio uma escrita experimental, um ensaio. Encaro o projeto de arquitetura e urbanismo sob uma abordagem fenomenológica, incluindo percepção e corpo, o sentido do tato e inacabamento no desenho dos espaços. Procuro situar, assim, que independentemente do canal utilizado para expor o que a mente gera, no projeto arquitetônico e urbano o corpo é o suporte para todas as manifestações e o ser humano usa a habilidade corporal para se expressar estruturando uma consciência projetual a partir de um centro sensorial. Nesta escrita experimental surgem três dimensões – a corporal, a emocional e a mental – as  quais servem como canais de intercâmbio de interação com o outro. E a indgação final confronta possíveis cartografias que insinuam a potência do processo de projeto de arquitetura e urbanismo ser uma experiência perceptiva a qual marca um corpo.

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