DRA DEBORAH LOPES PENNACHIN
Dentro do amplo espectro de manifestações de arte urbana,
a pixação destaca-se como a mais
radical e também a mais marginalizada. Proibida por lei, trata-se de uma
expressão artística de alto risco, que leva seus praticantes a arriscarem a
própria pele ao desafiarem os limites físicos de seus corpos e também os
sujeitarem a possíveis punições físicas, tais como o aprisionamento por parte
da polícia.
A prática da pixação
proporciona uma experimentação estética única do espaço urbano, de difícil
apreensão àqueles que não pertencem ao seu universo de sentidos. Prática coletiva
de escrita urbana, a pixação funciona
também como instauradora de subjetividade, tendo em vista que cada pixador adquire na rua uma nova
identidade, expressa por meio de seu codinome, de acordo com o qual passará
então a ser conhecido por seus pares. Dessa forma, constatamos ser a pixação uma escrita camuflada, para a
qual concorre o necessário anonimato de seus precursores, sendo ela uma escrita
proibida. O uso de codinomes funciona, assim, não somente como uma nova
instância identitária como, paradoxalmente, também um mecanismo de
escamoteamento, uma espécie de disfarce que proteja os pixadores das possíveis represálias a seus gestos de transgressão.
A pixação, como
forma de experimentação do espaço urbano, é muitas vezes desqualificada
justamente devido à sua natureza ilegal. De modo semelhante, os pixadores são desqualificados como
sujeitos, não somente devido às suas práticas fora da lei, como por sua
situação econômica, na maioria das vezes precária. Trata-se de um problema
social; a pixação funciona como
protesto e seus precursores impõem sua presença na cidade ao arriscarem-se em
ousadas investidas no cenário urbano.
Enquanto escrevia este resumo tive meu trabalho
interrompido pela morte de dois pixadores
paulistanos conhecidos meus. ALD e NANI foram executados por policiais
militares depois de adentrarem um edifício na zona leste de São Paulo com o
intuito de pixar sua fachada.
A versão dos policiais, reproduzida pela grande mídia,
qualificava a ambos como ladrões, o
que supostamente justificaria sua execução. Este é somente um dos casos que
exemplifica não somente os riscos aos quais se expõem os pixadores como o modus operandi de sua criminalização.
Devido à complexidade da pixação como expressão estética urbana, o papel do pesquisador que
se propõe a compreendê-la é bastante específico, passando pela etnografia.
Estratégias mais tradicionais de investigação tornam-se improfícuas diante de
um objeto de estudos marginal e marginalizado. Para alcançar os verdadeiros
significados inerentes à prática da pixação,
nada melhor que o “junto e misturado”, expressão urbana que bem define o tipo
de comportamento requisitado do pesquisador neste campo.
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