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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

AS MARGENS DO CORPO E ÀS MARGENS DA CIDADE: PIXAÇÃO É QUESTÃO DE PELE

DRA DEBORAH LOPES PENNACHIN

Dentro do amplo espectro de manifestações de arte urbana, a pixação destaca-se como a mais radical e também a mais marginalizada. Proibida por lei, trata-se de uma expressão artística de alto risco, que leva seus praticantes a arriscarem a própria pele ao desafiarem os limites físicos de seus corpos e também os sujeitarem a possíveis punições físicas, tais como o aprisionamento por parte da polícia.
A prática da pixação proporciona uma experimentação estética única do espaço urbano, de difícil apreensão àqueles que não pertencem ao seu universo de sentidos. Prática coletiva de escrita urbana, a pixação funciona também como instauradora de subjetividade, tendo em vista que cada pixador adquire na rua uma nova identidade, expressa por meio de seu codinome, de acordo com o qual passará então a ser conhecido por seus pares. Dessa forma, constatamos ser a pixação uma escrita camuflada, para a qual concorre o necessário anonimato de seus precursores, sendo ela uma escrita proibida. O uso de codinomes funciona, assim, não somente como uma nova instância identitária como, paradoxalmente, também um mecanismo de escamoteamento, uma espécie de disfarce que proteja os pixadores das possíveis represálias a seus gestos de transgressão.
A pixação, como forma de experimentação do espaço urbano, é muitas vezes desqualificada justamente devido à sua natureza ilegal. De modo semelhante, os pixadores são desqualificados como sujeitos, não somente devido às suas práticas fora da lei, como por sua situação econômica, na maioria das vezes precária. Trata-se de um problema social; a pixação funciona como protesto e seus precursores impõem sua presença na cidade ao arriscarem-se em ousadas investidas no cenário urbano.
Enquanto escrevia este resumo tive meu trabalho interrompido pela morte de dois pixadores paulistanos conhecidos meus. ALD e NANI foram executados por policiais militares depois de adentrarem um edifício na zona leste de São Paulo com o intuito de pixar sua fachada.
A versão dos policiais, reproduzida pela grande mídia, qualificava a ambos como ladrões, o que supostamente justificaria sua execução. Este é somente um dos casos que exemplifica não somente os riscos aos quais se expõem os pixadores como o modus operandi de sua criminalização.
Devido à complexidade da pixação como expressão estética urbana, o papel do pesquisador que se propõe a compreendê-la é bastante específico, passando pela etnografia. Estratégias mais tradicionais de investigação tornam-se improfícuas diante de um objeto de estudos marginal e marginalizado. Para alcançar os verdadeiros significados inerentes à prática da pixação, nada melhor que o “junto e misturado”, expressão urbana que bem define o tipo de comportamento requisitado do pesquisador neste campo.

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