A cidade se defini hoje através
de uma coreografia de fluxos e fixos. No habitar contemporâneo, as trocas, os
encontros não acontecem mais no lugar concreto da cidade. A
"ditatura" econômica da cidade eficiente deu toda adequação ao
desenvolvimento de um espaço virtual, feito de fluxos infinitos. Essas novas
comutações caracterizam hoje a vida coletiva. Nesse afastamento da terra é
preciso de um espaço aproximativo, flexível. Ele não tem mais limites; que
sejam espaciais ou temporais, nos andamos num espaço indefinido, homogeneizado,
onde o unitário conjunto não é mais ator da historia ou da vida coletiva. Os
lugares da cidade parecem não existir mais. Será possível viver sem lugar ?
Podemos evoluir num espaço sem memória nem sonhos, um espaço que só acontece no
instante ?
Nesse “espaço-sem-lugar”
a materialidade absolutamente primeira resiste: o nosso Corpo. Numa mobilidade
constante, o único lugar que permanece é o corpo. É ele que se torna lugar e
ator principal de nosso enraizamento nos territórios. Assim nos habitamos no
movimento através do corpo.
O cidadão do século XXI
voltou a ser Uma espécie de nômade da idade-média: que vive em movimento. Com
duas diferenças consideráveis, ele tem todos os tipos de meios de transporte à
sua disposição e não conta mais em quilômetros, mas em minutos a sua relação
com o espaço real ao seu redor. Pela magia dos aparelhos, ele pode estar aqui e
ali realizando assim o velho sonho da ubiquidade. Quando as comunicações portáteis
associam-se com o corpo humano, é o homem que se torna meio de circulação. Se a
existência do indivíduo encontra-se em seu projeto (o habitar seria a
capacidade do ser humano de se projetar fora do seu contexto físico imediato ou
distante, o corpo sendo a matriz dessa ação e desse projeto ) é preciso olhar
para o processo, para não tomar o seu movimento como o único objetivo. Assim o
ser humano habitante não é só um corpo programado que reagiria como um
executante; ele é lugar da sua habitação por se acomodar da transição do
eventual e do imprevisto num resultado só. Nossa habitação é a ilustração
espaço-temporal da nossa presença revelada na nossa mobilidade criativa.
Como a descaracterização
do espaço, às vezes, o corpo submete-se também a essa perda de identidade.
Assim o habitante fica sempre dividido entre a necessidade de ser e a
necessidade de parecer (pare-ser). Porém em culturas como no Rio de Janeiro, a
troca, o encontro com o outro e a sociedade o Corpo permanece a ser ator
principal de nosso habitar. Como o corpo se torna lugar e ator de vida coletiva
na cidade contemporânea ?

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