Após o café e a chegada
de um amigo, o homem resolve sair de casa. Decidido, ele solicita a abertura do
portão, substituindo os balbucios de todo dia por voz clara e assertiva.
Na rua, caminha com
dificuldade, mas não desanima. Transforma um trajeto simples e rápido,
ordinário, em demorado saboreio de cumprimentos, toques nos muros das casas e
vento.
E num ritmo contrário ao
frenesi de buzinas e gente apressada, ele encontra uma praça deserta. Ali, o caminhar
se faz ainda mais lento e o corpo vai se curvando vagarosamente ao encontro da
grama.
Com fluidez e maestria,
abraça o chão verde, luminoso sob o sol das dez. E, feito lagarto, rasteja até
a fronteira da praça com a rua. De lado, que nem César ou Adriano, observa a
vida de novo ângulo, e conta:
4 carros;
2 motos;
3 casas;
1 mulher;
3 árvores.
Prossegue no inventário
das coisas todas.
Revigorado, inclui a si
e ao amigo no cômputo do espólio.
E, por fim, se levanta.
Em seu corpo um véu de
cal, grama e sujeira.
Já era hora do almoço.
Este trabalho versa sobre as relações de moradores de
residências terapêuticas, ex-internos de um hospital psiquiátrico, com as
matérias da cidade. Após anos de internamento e de vida institucionalizada,
propomos caminhar com eles, em parceria, na construção de um novo
cotidiano/corpo que vai se traçando entre ruas, praças e parques.
Diante deste desafio apostamos em narrativas do ínfimo, filigranas
de um cotidiano que compõem paisagens de ricas pequenezas. Longe dos grandes
discursos que proclamam a verdade da loucura ou qualquer outra verdade, vemos
nestas curtas histórias alguns vestígios para a composição de novos caminhos
que, tomando a intercessão entre arte, clínica e vida, misturam-nas e as confundem
até o ponto de não mais podermos distingui-las.
Narrar o “inútil” comporta, entretanto, um evidente
paradoxo. Se cremos ser importante trazer luz às pequenas histórias do
cotidiano, não estaríamos provendo-as de uma necessária utilidade? Nossa resposta
é afirmativa: o “inútil” é de fato bastante útil. Contudo, reforçamos a aposta
ética de que o paradoxo acima é a maior expressão: em um mundo povoado por
finalidades pré-concebidas, utilitarismos ordinários, tecnicismos sufocantes,
especialismos fragmentados e “causas
finais” de todo tipo, não seria importante reabilitar a experiência singular de
encontros anônimos, pequenos, menores, “inúteis”?
Acreditamos que a perspectiva aqui narrada possa contribuir
para a invenção de novos modos de fazer a vida, de expressá-la: um fazer
clínico, artístico e vital. As intercessões com autores como Walter Benjamin,
Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari constituem as ferramentas por
meio das quais viemos trilhando os caminhos percorridos até o momento. Nestes
rumos, temos a impressão leve e discreta da construção de trilhas fugitivas,
nômades, abertas ao jogo de forças que cunha nossas precárias identidades.
No parque éramos muitos.
Espalhados, diminuíamos o espaço entre nós e o mundo de cores, flores, folhas,
terra. Mas, no instante de um cuidado, noto uma ausência. Nada de pânico,
penso. Espero.
Afasto-me de meus
companheiros e vejo um grupo de crianças. Muitas, barulhentas, brincalhonas.
Lancheiras abertas, hora do lanche. Em pé altivamente estava a professora,
explicando com gestos imensos e voz alta algum sei-lá-o-quê. Em meio às
crianças, sem cerimônia, lá estava ele acocorado comendo um pão.
Chego na hora. “Quem é
você?” Pergunta a professora ao novo “aluno”. Ele sorri aquele sorriso sem
dentes e cheio de cara. Eu me aproximo e a pergunta se dirige a mim: “quem é
ele?”.
“Ele é o Chico e eu sou
o Mario”, respondo.
“Sejam bem-vindos Chico
e Mario”, ela diz. E alguma criança me oferece um pão.
Chico,
acocorado em meio às crianças, vive um encontro único e precioso; as crianças,
surpreendidas por uma visita inesperada, também experimentam um riso e uma
curiosidade advindas do novo, ou, se preferirmos, da diferença. E o pão que nos
é oferecido talvez seja um convite a explorar as possibilidades estéticas (e
também éticas e políticas) dos fazeres da vida.
Bibliografia:
BENJAMIN,
W. Obras Escolhidas: magia e técnica,
arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
DELEUZE,
G. Conversações. São Paulo: Editora 34,
2010.
FOUCAULT,
M. Ditos & Escritos V: ética,
sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
GUATTARI,
F. Caosmose: um novo paradigma
estético. São Paulo: Editora 34, 2012.
RANCIÉRE,
J. A partilha do sensível: estética e
política. São Paulo: Editora 34, 2014.
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