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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Narrar o inútil: caminhos expressivos entre clínica, arte e vida.


Após o café e a chegada de um amigo, o homem resolve sair de casa. Decidido, ele solicita a abertura do portão, substituindo os balbucios de todo dia por voz clara e assertiva.
Na rua, caminha com dificuldade, mas não desanima. Transforma um trajeto simples e rápido, ordinário, em demorado saboreio de cumprimentos, toques nos muros das casas e vento.
E num ritmo contrário ao frenesi de buzinas e gente apressada, ele encontra uma praça deserta. Ali, o caminhar se faz ainda mais lento e o corpo vai se curvando vagarosamente ao encontro da grama.
Com fluidez e maestria, abraça o chão verde, luminoso sob o sol das dez. E, feito lagarto, rasteja até a fronteira da praça com a rua. De lado, que nem César ou Adriano, observa a vida de novo ângulo, e conta: 
4 carros;
2 motos;
3 casas;
1 mulher;
3 árvores.
Prossegue no inventário das coisas todas.
Revigorado, inclui a si e ao amigo no cômputo do espólio.
E, por fim, se levanta.
Em seu corpo um véu de cal, grama e sujeira.
Já era hora do almoço.


Este trabalho versa sobre as relações de moradores de residências terapêuticas, ex-internos de um hospital psiquiátrico, com as matérias da cidade. Após anos de internamento e de vida institucionalizada, propomos caminhar com eles, em parceria, na construção de um novo cotidiano/corpo que vai se traçando entre ruas, praças e parques.
Diante deste desafio apostamos em narrativas do ínfimo, filigranas de um cotidiano que compõem paisagens de ricas pequenezas. Longe dos grandes discursos que proclamam a verdade da loucura ou qualquer outra verdade, vemos nestas curtas histórias alguns vestígios para a composição de novos caminhos que, tomando a intercessão entre arte, clínica e vida, misturam-nas e as confundem até o ponto de não mais podermos distingui-las.
Narrar o “inútil” comporta, entretanto, um evidente paradoxo. Se cremos ser importante trazer luz às pequenas histórias do cotidiano, não estaríamos provendo-as de uma necessária utilidade? Nossa resposta é afirmativa: o “inútil” é de fato bastante útil. Contudo, reforçamos a aposta ética de que o paradoxo acima é a maior expressão: em um mundo povoado por finalidades pré-concebidas, utilitarismos ordinários, tecnicismos sufocantes, especialismos fragmentados e  “causas finais” de todo tipo, não seria importante reabilitar a experiência singular de encontros anônimos, pequenos, menores, “inúteis”?
Acreditamos que a perspectiva aqui narrada possa contribuir para a invenção de novos modos de fazer a vida, de expressá-la: um fazer clínico, artístico e vital. As intercessões com autores como Walter Benjamin, Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari constituem as ferramentas por meio das quais viemos trilhando os caminhos percorridos até o momento. Nestes rumos, temos a impressão leve e discreta da construção de trilhas fugitivas, nômades, abertas ao jogo de forças que cunha nossas precárias identidades.

No parque éramos muitos. Espalhados, diminuíamos o espaço entre nós e o mundo de cores, flores, folhas, terra. Mas, no instante de um cuidado, noto uma ausência. Nada de pânico, penso. Espero.
Afasto-me de meus companheiros e vejo um grupo de crianças. Muitas, barulhentas, brincalhonas. Lancheiras abertas, hora do lanche. Em pé altivamente estava a professora, explicando com gestos imensos e voz alta algum sei-lá-o-quê. Em meio às crianças, sem cerimônia, lá estava ele acocorado comendo um pão.
Chego na hora. “Quem é você?” Pergunta a professora ao novo “aluno”. Ele sorri aquele sorriso sem dentes e cheio de cara. Eu me aproximo e a pergunta se dirige a mim: “quem é ele?”.
“Ele é o Chico e eu sou o Mario”, respondo.
“Sejam bem-vindos Chico e Mario”, ela diz. E alguma criança me oferece um pão.

Chico, acocorado em meio às crianças, vive um encontro único e precioso; as crianças, surpreendidas por uma visita inesperada, também experimentam um riso e uma curiosidade advindas do novo, ou, se preferirmos, da diferença. E o pão que nos é oferecido talvez seja um convite a explorar as possibilidades estéticas (e também éticas e políticas) dos fazeres da vida.



Bibliografia:

BENJAMIN, W. Obras Escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
DELEUZE, G. Conversações. São Paulo: Editora 34, 2010.
FOUCAULT, M. Ditos & Escritos V: ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. 
GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34, 2012.
RANCIÉRE, J. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2014.










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