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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Esquizografias Urbanas

Bruno Cuiabano e Manuela Linck de Romero
         
Nosso trabalho busca deflagrar um corpo sob estado de atenção artística como qualidade que visamos na experimentação da cidade. Escolhemos o método cartográfico (Deleuze e Guattari) por este nos possibilitar o desenvolvimento do que seria uma “atenção de cartógrafo” (Kastrup, 2007), imprescindível para a apreensão da dimensão processual da complexidade urbana. No movimento, inventamos estratégias de facilitação e ativação de uma « atenção à espreita » (Kastrup, 2007) – flutuante, concentrada e aberta. Trata-se de um tônus atencional que não se assemelha ao estado de relaxamento passivo e tampouco ao de uma rigidez controlada. A cartografia se faz na fluidez entre estes dois extremos, não enquanto uma competência, mas sim como uma performance.

Propomos a experimentação da cidade por meio de um corpo-medidor - o corpo do artista se transforma num instrumento estético de medição do espaço urbano - ferramenta régua, esquadro, transferidor, compasso medindo distâncias, mas também ângulos e áreas. É um corpo-balança, que mede e dança - entre volumes, pesos, tempos, ele é um corpo-ampulheta. Um corpo-termômetro das temperaturas, luzes, sons e climas misturado às ambiências. O corpo tem “tamanhos” que podem ser traduzidos por números e os números podem também virar corpo. São muitas as unidades de medida construídas a partir do corpo, como a palma, marcada pela diferença do tamanho de cada mão. Podemos nos fazer a pergunta: quantos pés tem uma cidade? As proporções do corpo em contato com a urbe podem também se atualizar enquanto fluxos de intensidade nos planos do sensível apreendendo a complexidade afetiva urbana. 

Em meio ao som da cidade se faz também um corpo rítmico com seus pulsos, um corpo sonoro em ressonância que intensificam as medições. Batimentos e vibrações participam da escritura do corpo em linhas do espaço liso e estriado da cidade. Uma corpografia (Berenstein Jacques, 2008) - a grafia do corpo - que coloca em questão como os mapas podem ser construídos. Corpos no espaço que traçam e esboçam coordenadas de perímetros outros transbordando o mapa formal do planejador urbano. Um mapa sem planejamento, uma experiência de planos narrados em latitudes e longitudes virtuais.

Essa experiência estético-corporal no encontro com as medidas e vibrações da cidade gera um espaço territorial de existência singular. Em sua capacidade vibrátil, esse corpo se afeta enquanto vivo pelo mundo (Rolnik, 1999) permeando lógicas e temporalidades totalmente distintas. Seus limites são territórios paradoxais – não é mais corpo-sujeito e sim corpo-entre – onde, em meio aos estranhamentos, se apresentam brechas para o novo como desvio à re-cognição. A arte, por não ter estrutura fechada, desenvolve a atenção sensível do cartógrafo na detecção de signos e forças que o impelem a criar. Ela produz movimentos de improviso do corpo atravessado por multiplicidades de objetos e sensações. No processo criativo da escrita, da leitura, da dança, da fotografia - na percepção estética - há atenção cartográfica. 

Um corpo que porta a câmera fotográfica produz a captura solta de instantes do corpo-pulso a mensurar a cidade. A ocupação radical dos espaços e suas cidades promovem acontecimentos, encontros de sutilezas e intensidades que fogem à norma. Estes são apreendidos pelo olhar do artista-fotógrafo que também entra em composição com as linhas, as sensações, objetos, curvas, vetores e forças sob estados ampliados de percepção. Produção de devires imperceptíveis. 

Bibliografia

Berenstein Jacques, Paola. (2008). Corpografias urbanas. O texto pode ser encontrado em: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq093/arq093_02.asp

Kastrup, Virginia. (2007). O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. Psicologia & Sociedade, v.19, n.I, p.I5-22.

Rolnik, Suely. (1999). Novas figuras do caos. Mutações da subjetividade contemporânea. In Caos e Ordem na Filosofia e nas Ciências, org. Lucia Santaella e Jorge Albuquerque Vieira. Face e Fapesp, São Paulo, 1999; pp. 206-21.

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