O objeto tomado para o diálogo e análise é a manifestação anual do Bicho
Caçador, criada e realizada pelos habitantes do bairro Porto de Trás, na cidade
de Itacaré (BA). Partindo da minha própria experiência de coreógrafa mobilizada
por questões de segregação social, o estudo se desenvolve articulando
depoimentos coletados e dados históricos contextuais, com as noções de
coimplicação entre corpo e ambiente (Britto, 2008), corpografia urbana (Britto
e Jacques, 2008, 2010) e profanação (Agamben, 2007), para mostrar como o Bicho
Caçador transgride (desde o nome) as regras de convívio e ocupação do espaço
urbano, pelo seu uso dessacralizador da segregação espacial, sócio-econômica e
étnico-cultural vigentes na cidade. O que poderia querer dizer: profanar a
dança e o espaço público? Será então,
uma das possibilidades as inovações na forma de representação e reinvidicações
deste campo?Pretende-se, desse modo, sugerir que a dança pode ser um tipo de
ação crítica, de desvio ou resistência aos modelos hegemônicos de pensamento e
comportamento promotores da espetacularização – papel que denominaremos de
ativismo político.
[...]Muitos pensam que o Bicho Caçador tem só a conotação da
natureza, entre o caçador e o bicho, estes personagens. Para mim vai além. Vejo
uma relação ancestral, até sobre as histórias também dos escravos, do homem
negro sendo escravizado, acho que tem este significado, que está intrínseco,
que fica mais subjetivo, pois é uma manifestação forte, e por trás da cultura,
da dança e da brincadeira existe um pouco de protesto. Quando cheguei aqui eu
não tinha idéia da dimensão da dificuldade de aceitação das pessoas daqui com
as pessoas de fora. Eu não percebia isto. Com o tempo, eu fui percebendo, sim
que existe uma dificuldade de interação [...] (Informação Verbal)[1]
[...]Após a saída do Bicho Caçador, eu e meus amigos ficávamos
brincando; e eu sempre escolhia o caçador para dançar e com isto fui criando um
modo de dançar. Aprendi a dançar com Buzano (o outro caçador), e quando tinha
uns 20 anos comecei a dividir com ele o caçador. E cada um tem sua
característica de dançar, eu mesmo vou mais para o ataque, vou para cima. O
Buzano não, vai muito para o chão[...](depoimento de Arionilson Sá – um dos
caçadores)
[...]Na
improvisação, o sentido autoral da ideia de composição deslocou-se do sujeito
para a relação que ele estabelece com o mundo em que vive. Corpo, dança e mundo
são coautores involuntários de suas respectivas identidades. O entendimento da
dança, deslocado para o eixo da instabilidade, reorganiza nossos conceitos
estabilizados: põe no corpo o que estava na coreografia: a dança; põe na dança
o que estava no corpo: a identidade; e põe na relação entre todos o que estava
em cada um: a autoria. Diluir na vida o sujeito autoral é a ética deste
registro estético. (BRITTO, 2008, pg. 109)
[...] E não é este nome, e
de um certo tempo para cá que modificou, e coloram este bicho caçador. O bicho
não caça, ele é caçado. O caçador é um
homem e não o bicho. Porque o Bicho Caçador é um bicho que come um outro bicho.[...]
( Informação Verbal)[2]
[...] É um bairro que não sinto vontade de sair, pois você ainda pode
sentar na porta, conversar com as pessoas; é um bairro seguro, você pode deixar
a porta aberta, é um lugar que as crianças brincam à vontade. Há uma união no
bairro, muitos dizem que já acabou, mas eu vejo que ela ainda existe, e é isso
que difere dos outros bairros[...][3]
Pretende-se mostrar que as danças criadas como manifestações populares de grupos sociais espontaneamente organizados, que ocorrem na rua e se baseiam nas suas experiências cotidianas dos espaços públicos em que vivem, produzem um tipo de transgressão das normas tanto de organização urbanística quanto da dinâmica sócio-urbana vigente e da própria prática artística coreográfica, na medida em que subvertem a lógica segregatória e espetacular que se impõe atualmente como modelo hegemônico de cidade, de arte e inclusive de corporalidade (Britto e Jacques, 2008, 2010).
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