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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A dança ocupa a cidade: reflexões a partir do Bicho Caçador


O objeto tomado para o diálogo e  análise é a manifestação anual do Bicho Caçador, criada e realizada pelos habitantes do bairro Porto de Trás, na cidade de Itacaré (BA). Partindo da minha própria experiência de coreógrafa mobilizada por questões de segregação social, o estudo se desenvolve articulando depoimentos coletados e dados históricos contextuais, com as noções de coimplicação entre corpo e ambiente (Britto, 2008), corpografia urbana (Britto e Jacques, 2008, 2010) e profanação (Agamben, 2007), para mostrar como o Bicho Caçador transgride (desde o nome) as regras de convívio e ocupação do espaço urbano, pelo seu uso dessacralizador da segregação espacial, sócio-econômica e étnico-cultural vigentes na cidade. O que poderia querer dizer: profanar a dança e o espaço  público? Será então, uma das possibilidades as inovações na forma de representação e reinvidicações deste campo?Pretende-se, desse modo, sugerir que a dança pode ser um tipo de ação crítica, de desvio ou resistência aos modelos hegemônicos de pensamento e comportamento promotores da espetacularização – papel que denominaremos de ativismo político.

[...]Muitos pensam que o Bicho Caçador tem só a conotação da natureza, entre o caçador e o bicho, estes personagens. Para mim vai além. Vejo uma relação ancestral, até sobre as histórias também dos escravos, do homem negro sendo escravizado, acho que tem este significado, que está intrínseco, que fica mais subjetivo, pois é uma manifestação forte, e por trás da cultura, da dança e da brincadeira existe um pouco de protesto. Quando cheguei aqui eu não tinha idéia da dimensão da dificuldade de aceitação das pessoas daqui com as pessoas de fora. Eu não percebia isto. Com o tempo, eu fui percebendo, sim que existe uma dificuldade de interação [...] (Informação Verbal)[1]

[...]Após a saída do Bicho Caçador, eu e meus amigos ficávamos brincando; e eu sempre escolhia o caçador para dançar e com isto fui criando um modo de dançar. Aprendi a dançar com Buzano (o outro caçador), e quando tinha uns 20 anos comecei a dividir com ele o caçador. E cada um tem sua característica de dançar, eu mesmo vou mais para o ataque, vou para cima. O Buzano não, vai muito para o chão[...](depoimento de Arionilson Sá – um dos caçadores)

[...]Na improvisação, o sentido autoral da ideia de composição deslocou-se do sujeito para a relação que ele estabelece com o mundo em que vive. Corpo, dança e mundo são coautores involuntários de suas respectivas identidades. O entendimento da dança, deslocado para o eixo da instabilidade, reorganiza nossos conceitos estabilizados: põe no corpo o que estava na coreografia: a dança; põe na dança o que estava no corpo: a identidade; e põe na relação entre todos o que estava em cada um: a autoria. Diluir na vida o sujeito autoral é a ética deste registro estético. (BRITTO, 2008, pg. 109)

[...]  E não é este nome, e de um certo tempo para cá que modificou, e coloram este bicho caçador. O bicho não caça,  ele é caçado. O caçador é um homem e não o bicho. Porque o Bicho Caçador é um bicho que come um outro bicho.[...] ( Informação Verbal)[2]

[...] É um bairro que não sinto vontade de sair, pois você ainda pode sentar na porta, conversar com as pessoas; é um bairro seguro, você pode deixar a porta aberta, é um lugar que as crianças brincam à vontade. Há uma união no bairro, muitos dizem que já acabou, mas eu vejo que ela ainda existe, e é isso que difere dos outros bairros[...][3]

Pretende-se mostrar que as danças criadas como manifestações populares de grupos sociais espontaneamente organizados, que ocorrem na rua e se baseiam nas suas experiências cotidianas dos espaços públicos em que vivem, produzem um tipo de transgressão das normas tanto de organização urbanística quanto da dinâmica sócio-urbana vigente e da própria prática artística coreográfica, na medida em que subvertem a lógica segregatória e espetacular que se impõe atualmente como modelo hegemônico de cidade, de arte e inclusive de corporalidade (Britto e Jacques, 2008, 2010).


[1] Caderno de campo, depoimento - Juliana Machado, 2011.
[2] Caderno de campo, depoimento - Judete Bahia, 2011.
[3]Depoimento de um morador do bairro do Porto de Trás. Caderno de campo, 08/05/2012.

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