Pesquisar este blog

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Francis Alÿs: percursos e desvios

Clara Laurentiis

Essa proposta de articulação volta-se para a poética visual de Francis Alÿs, de origem belga, formado em Arquitetura e Urbanismo no Institut Supérieur d'Architecture Saint-Luc, em Tournai, na Bélgica. No começo da década de 1980, iniciou os estudos no Istituto di Architettura di Venezia, em Veneza na Itália, onde desenvolveu sua tese de doutoramento, na qual buscou estabelecer um paralelo entre a eliminação da fauna urbana da cidade pré-renascentista e o progressivo desaparecimento do conceito de animalidade nas representações populares. Mudou-se para a Cidade do México em 1986, para trabalhar com organizações não governamentais, período durante o qual se percebeu cético com relação às políticas urbanísticas. 

A partir dos anos 1990, Alÿs se afasta da prática arquitetônica para se dedicar à prática artística, através da qual explorou novas formas de aproximação com o espaço da Cidade do México, onde reside ainda hoje. A frustração do artista em relação às possibilidades do planejamento urbano e sua consequente decisão em se afastar do campo da arquitetura foi o ponto de entrada para pensar sua poética em relação à cidade. Se as políticas de planejamento urbano muitas vezes parecem ineficazes, elas também podem ser percebidas em seu efeito nocivo a partir de processos urbanos como a gentrificação. Daí o interesse na produção de Alÿs, que permite reflexões sobre formas de intervenção no espaço urbano que não passam por uma discussão da cidade como um todo que deve seguir determinadas diretrizes.

O contato com as obras do artista permitiu dar forma a questões sobre a possibilidade de atuar na cidade sem ser capturado pelos movimentos do neoliberalismo que moldam as cidades contemporâneas. Se o urbanismo parece sempre capturável, a produção artística pode problematizar essa condição e produzir situações no espaço que não são regidas pelo traçado institucional. Ao realizar suas ações no contexto urbano, Alÿs não trabalha apenas com o uso do espaço, mas também com o ritmo da vida nas metrópoles latino-americanas, especialmente na Cidade do México. Isso se dá de maneira simultânea, ou seja, tempo e espaço não estão desvinculados nas intervenções do artista. 

Pensar no espaço urbano contemporâneo é também pensar no ritmo que esse espaço implica sobre os corpos. Vivemos apressados, atravessando os mesmos trajetos diários numa velocidade alucinante, tentando chegar do ponto de partida ao ponto de chegada no menor intervalo de tempo possível. Alÿs caminha, para, observa e registra a vida na Cidade do México. Não se mostra muito interessado em chegar a um ponto final definitivo. Dispende tempo e energia em tarefas que parecem não levar a nada. Move montanhas criando um deslocamento quase imperceptível. Repete. A partir da articulação entre observação e intervenção na cidade, especialmente na capital Mexicana, ele encontra formas de problematizar a vida nas metrópoles contemporâneas. Pretende-se aqui, portanto, pensar algumas dessas formas encontradas pelo artista de tornar visíveis e sensíveis questões relevantes na interface entre arte e arquitetura.

Entende-se aqui que corpo e espaço se articulam de maneira inseparável, de modo que intervenções de qualquer natureza no espaço despertam questões subjetivas, impulsos cognitivos e afetivos. Sendo assim, pode-se pensar a arte como sendo capaz de suscitar movimentos que permitam reelaborações da produção de subjetividade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário