O texto que se segue foi
produzido a partir de um encontro em nosso campo de pesquisa – a cidade, e a
preocupação comum dos trabalhos é a resistência das subjetividades, no
contemporâneo, frente ao biotecnocontrole. O cultivo da deriva pela cidade é
uma de nossas posturas de pesquisa, e vêm produzindo encontros férteis para
pensar e desenvolver algumas preocupações teóricas, tais como a problematização
das políticas de controle que produzem modos de vida anestesiados e assépticos;
e a potencialização e produção de movimentos de resistência frente a essas
políticas. Por meio do relato de um desses
encontros, levanta-se aqui a cumplicidade despessoalizada no espaço urbano como
potência do habitar coletivo.
Laura Rosenbaum e Priscila Vescovi
Guattari e Rolnik consideram
que Modigliani permite, com suas obras, um acesso ao indizível e invisível.
Para eles, o artista produz uma ruptura no sensível e, com isso, outros
olhares. Para além e aquém da linguagem, o artista brinca com o impossível por
meio de uma nova suavidade, “invenção
de uma outra relação com o corpo” (2010, p. 341). Segundo os mesmos autores
“Modigliani não apenas mudou seu próprio modo de ver um rosto, mas também a
maneira coletiva de ver um rosto”. (p. 214).
Figura 1: Pintura de Modigliani.
MODIGLIANI,A. Portrait
of Lunia Czechowska. 1918. Óleo sobre tela. 80 × 52 cm. Disponível
em: Amedeo_modigliani_-_retrato_de_madame_hanka_zborowska_02.jpg
A arte é um dispositivo
potente para transformar, desfazer, pôr em dúvida as institucionalizações da
vida. Apostamos que esse dispositivo está não apenas nas obras penduradas nos
museus e que não apenas artistas reconhecidos como tais fazem uso dele.
Buscamos, na deriva urbana, artistas anônimos, efêmeros, aqueles que “são seus
próprios quadros, seus próprios livros, sua própria musica, sua própria obra[1]”.
Ainda que categoricamente
estruturada e discriminatória, a cidade nos convoca um sem número de
possibilidades, uma vez que é justamente neste movimento incessante de busca por
contágio, pela afirmação de uma ocupação do espaço urbano, que outras
sensibilidades se inventam, engendrando a dimensão produtiva do desejo.
O que
conta com as cidades de hoje é menos seus aspectos de infra-estrutura, de comunicação e de serviço do que o
fato de engendrarem, por meio de equipamentos materiais e imateriais a
existência humana sob todos os aspectos em que se queira considerá-la.
(GUATTARI apud CAIAFA, 2002, p. 37).
Há, na cidade, a existência
de uma dimensão coletiva da experiência. Por coletivo queremos afirmar o
público, não enquanto categoria – bloco fechado –, mas o que é atravessado pela
polis, política. Ao coletivo não confere rostos, nomes, identidades. São
vetores de subjetivação que perpassam o comum, essa “experiência coletiva em
que qualquer um se engaja ou em que estamos engajados pelo que em nós é
impessoal.” (PASSOS e BENEVIDES, 2012, p. 19).
Nessa dimensão, buscamos
vias potentes de transformação coletiva, que apontem à desautomatizacão das
subjetividades. Procuramos Modiglianis na cidade, produções desejantes que
enunciem outros sentidos para o habitar coletivo.
“As ruas são o apartamento do coletivo. O coletivo (...) vive, experimenta,
conhece e inventa tantas coisas entre as fachadas dos imóveis quanto o faz o
individuo no abrigo de suas quatro paredes”. (BENJAMIN apud JACQUES, 2001, p.
90).
Corpos que se recusam à
docilização frente ao biotecnocontrole. Corpos que teimam em inventar. Como
fazer para encontrá-los?
“é uma coisa muito simples (...) irrompe no cotidiano, pode
acontecer neste meio-dia ensolarado, agora, entre você e eu (...)".
(CORTÁZAR, 1978, p. 37)
***
Era um dia feio,
daqueles de céu sem cor. Não inspirava promessas de futuro, nem imersão no
passado. No tempo de espera por uma amiga na orla, esse tempo vazio,
intermediário, estávamos sentadas nos bancos da praia, visíveis para ele e suas
brincadeiras.
Um corpo
forte e marcado. Ele veio até nós. Insistia na força e nas marcas, destacando
os músculos, repetindo sua idade - Tenho
40 anos, não nasci em berço de ouro não, olha minhas mãos todas calejadas. E
as tatuagens, e as cicatrizes, que sugeriam uma vida vivida intensamente, delas
não falou.
Em sua
bicicleta - Minha, não. É nossa - de
passeio, podia oferecer uma voltinha a quem fosse amigo. Amigos fomos pela
imundície, pela sujeira - Acordar é
cagar, mijar, peidar… A gente é tudo porcaria, é assim que é a vida, não é? Concordávamos.
Ele confiou.
A
Camicreta é um triciclo com um banco muito bem desenhado acoplado na grande
garupa e alguns outros apetrechos, como guarda-sol, câmera filmadora (daquelas gopro, sabem? Mas não estava ligada a
nada!) e retrovisor. Ela teima em andar sozinha, às vezes, quase passando por
cima de nadadores de skate, de patins, caminhantes. Encontrões. Ele se desculpa
- não vi – e depois olha para nós com
uma cara sapeca. Ele e esse veículo teimoso guiam o
passeio pela orla de Camburi. Lá é famoso, fala com todos, é amigo de todos,
até perceber que algo não compactua com essa espécie de ética da (trans)ação
urbana. - Você sabe o que é um olhar? Ele foi mal-educado, esse cara, enjoado! Não
gosto de gente enjoada.
O espaço
da ciclovia é desconfortável, é institucionalizado demais, não há como
respeitá-lo. Onde já se viu só poder
andar onde está pintado de vermelho? Em nome do passeio é preciso percorrer
também a calçada, a rua, até quase cair na areia. Quase, por um triz. Por um
triz não se machuca, por um triz não atropela alguém. É, minhas amigas, a vida se faz de riscos...
É uma
bicicleta, ou melhor, um triciclo, mas não por isso não precisa de combustível.
Fica numa garrafa de plástico, dessas de esportista. Quer água de coco? Se diverte quando sentimos o gosto da vodca!
Passamos
pelo píer de iemanjá. Ele aponta para aquele balanço na árvore. Fui eu que coloquei aí, sabia? Pra me divertir,
pra fazer churrasco. Por que aqui? Por que não em sua casa, em seu prédio?
Ele dá um tempo de silêncio grave como quem espera que percebamos o absurdo de
nossa pergunta. Depois sorri e abraços.
Parecia
que seria impossível ir embora, mas ele não dependia de nós para continuar o
passeio, sentia que a rua era de um "nós" que estava, a todo momento,
porvir. Ele não cabe num relato, mas cabe na cidade. Faz-se caber, não sem
embate. Sua luta por abrir espaços inventivos e, sobretudo, de amizade, é de uma
intensidade encantadora e, porque não, artística. Mas ele não é uma vida que se
pode capturar, que se pode classificar. Sua luta é anônima, pelo
"nós". Não é de sua vida que estamos falando, Eu sou Ximenes da Rede Globo, eu sou ninguém, eu sou amigo de todo
mundo. É do ninguém que pode ser
amigo de todo mundo, é da Camicreta que não é veículo de ninguém, e por isso
pode ser nosso.
Figura 2: Esculturas de Antony Gormley. GORMLEY,
A. Field of the britsh isles. Esculturas
em terracota, tamanho variado.
Aproximadamente 40000 elementos com 8-26 cm de altura. Exposição realizada no
Museum of Modern Art, Dublin, Irlanda, 1993. Disponível em: http://www.antonygormley.com/uploads/images/4e11a88c31081.jpg
Referências:
CAIAFA, Janice. Viajar
e as cidades. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2002.
CORTAZAR, Julio In
BERMEJO, E. Conversas com Cortázar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed, 2002.
GUATARRI, F. e ROLNIK,
S. Micropolítica: Cartografias do desejo. Petrópolis: Editora Vozes,
2010.
JACQUES, Paola B. Estética
da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio
de Janeiro: Ed. Casa da Palavra, 2001.
PASSOS, E. e
BENEVIDES, R. Por uma política da narratividade. In PASSOS, E; KASTRUP,V;
ESCOSSIA,L (org). Pistas do método da cartografia. Porto Alegre: Sulina,
2012.
[1] “você não vai vê-los direito/pois onde a
multidão estiver/eles/não estão./estes esquisitos, não/são muitos/mas deles/vêm/os
poucos/bons quadros/as poucas/boas sinfonias/os poucos/bons livros/e
outras/obras./e dos/melhores destes/estranhos/talvez/nada./eles são/seus
próprios/quadros/seus próprios/livros/sua própria/musica/sua própria/obra./as
vezes acho/que os/vejo-digamos/um certo/senhor/sentado num/certo banco/de um
certo/jeito/ou/um rosto rápido/virado pro outro/lado/no automóvel/que
passam/ou/ha um certo movimento/das mãos/de um empacotador
ou/empacotadora/enquanto empacota/as compras/do supermercado./as vezes/e até
mesmo alguém/com quem você/viveu/por um/tempo-/você ira notar/um/rápido
aclarar/no olhar/nunca visto/neles/antes./as vezes/você só irá notar/as
suas/existências/subitamente/em/vívidas/recordações/alguns meses/alguns
anos/apos eles terem/partido./eu me lembro/de um/ tal-/ele tinha uns/20
anos/bêbado às/dez da manhã/olhando para um/espelho/partido/de Nova
Orleans./rosto sonhando/contra os/muros/do mundo/para onde/eu/fui? (Os mais
fortes dos estranhos, Charles Bukowski).
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