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sábado, 29 de novembro de 2014

cumplicidade

O texto que se segue foi produzido a partir de um encontro em nosso campo de pesquisa – a cidade, e a preocupação comum dos trabalhos é a resistência das subjetividades, no contemporâneo, frente ao biotecnocontrole. O cultivo da deriva pela cidade é uma de nossas posturas de pesquisa, e vêm produzindo encontros férteis para pensar e desenvolver algumas preocupações teóricas, tais como a problematização das políticas de controle que produzem modos de vida anestesiados e assépticos; e a potencialização e produção de movimentos de resistência frente a essas políticas. Por meio do relato de um desses encontros, levanta-se aqui a cumplicidade despessoalizada no espaço urbano como potência do habitar coletivo. 
Laura Rosenbaum e Priscila Vescovi

Guattari e Rolnik consideram que Modigliani permite, com suas obras, um acesso ao indizível e invisível. Para eles, o artista produz uma ruptura no sensível e, com isso, outros olhares. Para além e aquém da linguagem, o artista brinca com o impossível por meio de uma nova suavidade, “invenção de uma outra relação com o corpo” (2010, p. 341). Segundo os mesmos autores “Modigliani não apenas mudou seu próprio modo de ver um rosto, mas também a maneira coletiva de ver um rosto”. (p. 214).

Figura 1: Pintura de Modigliani. MODIGLIANI,A. Portrait of Lunia Czechowska. 1918. Óleo sobre tela. 80 × 52 cm. Disponível em: Amedeo_modigliani_-_retrato_de_madame_hanka_zborowska_02.jpg

A arte é um dispositivo potente para transformar, desfazer, pôr em dúvida as institucionalizações da vida. Apostamos que esse dispositivo está não apenas nas obras penduradas nos museus e que não apenas artistas reconhecidos como tais fazem uso dele. Buscamos, na deriva urbana, artistas anônimos, efêmeros, aqueles que “são seus próprios quadros, seus próprios livros, sua própria musica, sua própria obra[1]”.
Ainda que categoricamente estruturada e discriminatória, a cidade nos convoca um sem número de possibilidades, uma vez que é justamente neste movimento incessante de busca por contágio, pela afirmação de uma ocupação do espaço urbano, que outras sensibilidades se inventam, engendrando a dimensão produtiva do desejo.
O que conta com as cidades de hoje é menos seus aspectos de infra-estrutura, de comunicação e de serviço do que o fato de engendrarem, por meio de equipamentos materiais e imateriais a existência humana sob todos os aspectos em que se queira considerá-la. (GUATTARI apud CAIAFA, 2002, p. 37).
Há, na cidade, a existência de uma dimensão coletiva da experiência. Por coletivo queremos afirmar o público, não enquanto categoria – bloco fechado –, mas o que é atravessado pela polis, política. Ao coletivo não confere rostos, nomes, identidades. São vetores de subjetivação que perpassam o comum, essa “experiência coletiva em que qualquer um se engaja ou em que estamos engajados pelo que em nós é impessoal.” (PASSOS e BENEVIDES, 2012, p. 19).  
Nessa dimensão, buscamos vias potentes de transformação coletiva, que apontem à desautomatizacão das subjetividades. Procuramos Modiglianis na cidade, produções desejantes que enunciem outros sentidos para o habitar coletivo. “As ruas são o apartamento do coletivo. O coletivo (...) vive, experimenta, conhece e inventa tantas coisas entre as fachadas dos imóveis quanto o faz o individuo no abrigo de suas quatro paredes”. (BENJAMIN apud JACQUES, 2001, p. 90).
Corpos que se recusam à docilização frente ao biotecnocontrole. Corpos que teimam em inventar. Como fazer para encontrá-los?

“é uma coisa muito simples (...) irrompe no cotidiano, pode acontecer neste meio-dia ensolarado, agora, entre você e eu (...)". (CORTÁZAR, 1978, p. 37)
***
Era um dia feio, daqueles de céu sem cor. Não inspirava promessas de futuro, nem imersão no passado. No tempo de espera por uma amiga na orla, esse tempo vazio, intermediário, estávamos sentadas nos bancos da praia, visíveis para ele e suas brincadeiras.
Um corpo forte e marcado. Ele veio até nós. Insistia na força e nas marcas, destacando os músculos, repetindo sua idade - Tenho 40 anos, não nasci em berço de ouro não, olha minhas mãos todas calejadas. E as tatuagens, e as cicatrizes, que sugeriam uma vida vivida intensamente, delas não falou.
Em sua bicicleta - Minha, não. É nossa - de passeio, podia oferecer uma voltinha a quem fosse amigo. Amigos fomos pela imundície, pela sujeira - Acordar é cagar, mijar, peidar… A gente é tudo porcaria, é assim que é a vida, não é? Concordávamos. Ele confiou.
A Camicreta é um triciclo com um banco muito bem desenhado acoplado na grande garupa e alguns outros apetrechos, como guarda-sol, câmera filmadora (daquelas gopro, sabem? Mas não estava ligada a nada!) e retrovisor. Ela teima em andar sozinha, às vezes, quase passando por cima de nadadores de skate, de patins, caminhantes. Encontrões. Ele se desculpa - não vi – e depois olha para nós com uma cara sapeca.  Ele e esse veículo teimoso guiam o passeio pela orla de Camburi. Lá é famoso, fala com todos, é amigo de todos, até perceber que algo não compactua com essa espécie de ética da (trans)ação urbana. - Você sabe o que é um olhar? Ele foi mal-educado, esse cara, enjoado! Não gosto de gente enjoada.
O espaço da ciclovia é desconfortável, é institucionalizado demais, não há como respeitá-lo. Onde já se viu só poder andar onde está pintado de vermelho? Em nome do passeio é preciso percorrer também a calçada, a rua, até quase cair na areia. Quase, por um triz. Por um triz não se machuca, por um triz não atropela alguém. É, minhas amigas, a vida se faz de riscos...
É uma bicicleta, ou melhor, um triciclo, mas não por isso não precisa de combustível. Fica numa garrafa de plástico, dessas de esportista. Quer água de coco? Se diverte quando sentimos o gosto da vodca!
Passamos pelo píer de iemanjá. Ele aponta para aquele balanço na árvore. Fui eu que coloquei aí, sabia? Pra me divertir, pra fazer churrasco. Por que aqui? Por que não em sua casa, em seu prédio? Ele dá um tempo de silêncio grave como quem espera que percebamos o absurdo de nossa pergunta. Depois sorri e abraços.
Parecia que seria impossível ir embora, mas ele não dependia de nós para continuar o passeio, sentia que a rua era de um "nós" que estava, a todo momento, porvir. Ele não cabe num relato, mas cabe na cidade. Faz-se caber, não sem embate. Sua luta por abrir espaços inventivos e, sobretudo, de amizade, é de uma intensidade encantadora e, porque não, artística. Mas ele não é uma vida que se pode capturar, que se pode classificar. Sua luta é anônima, pelo "nós". Não é de sua vida que estamos falando, Eu sou Ximenes da Rede Globo, eu sou ninguém, eu sou amigo de todo mundo. É do ninguém que pode ser amigo de todo mundo, é da Camicreta que não é veículo de ninguém, e por isso pode ser nosso.

Figura 2: Esculturas de Antony Gormley. GORMLEY, A. Field of the britsh isles. Esculturas em terracota, tamanho variado. Aproximadamente 40000 elementos com 8-26 cm de altura. Exposição realizada no Museum of Modern Art, Dublin, Irlanda, 1993. Disponível em: http://www.antonygormley.com/uploads/images/4e11a88c31081.jpg

Referências:

CAIAFA, Janice.  Viajar e as cidades. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2002.
CORTAZAR, Julio In BERMEJO, E. Conversas com Cortázar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2002.
GUATARRI, F. e ROLNIK, S. Micropolítica: Cartografias do desejo. Petrópolis: Editora Vozes, 2010.
JACQUES, Paola B. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Ed. Casa da Palavra, 2001.
PASSOS, E. e BENEVIDES, R. Por uma política da narratividade. In PASSOS, E; KASTRUP,V; ESCOSSIA,L (org). Pistas do método da cartografia. Porto Alegre: Sulina, 2012.




[1] “você não vai vê-los direito/pois onde a multidão estiver/eles/não estão./estes esquisitos, não/são muitos/mas deles/vêm/os poucos/bons quadros/as poucas/boas sinfonias/os poucos/bons livros/e outras/obras./e dos/melhores destes/estranhos/talvez/nada./eles são/seus próprios/quadros/seus próprios/livros/sua própria/musica/sua própria/obra./as vezes acho/que os/vejo-digamos/um certo/senhor/sentado num/certo banco/de um certo/jeito/ou/um rosto rápido/virado pro outro/lado/no automóvel/que passam/ou/ha um certo movimento/das mãos/de um empacotador ou/empacotadora/enquanto empacota/as compras/do supermercado./as vezes/e até mesmo alguém/com quem você/viveu/por um/tempo-/você ira notar/um/rápido aclarar/no olhar/nunca visto/neles/antes./as vezes/você só irá notar/as suas/existências/subitamente/em/vívidas/recordações/alguns meses/alguns anos/apos eles terem/partido./eu me lembro/de um/ tal-/ele tinha uns/20 anos/bêbado às/dez da manhã/olhando para um/espelho/partido/de Nova Orleans./rosto sonhando/contra os/muros/do mundo/para onde/eu/fui? (Os mais fortes dos estranhos, Charles Bukowski).

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