O projeto “Mulheres continentais” nasce do
desejo de mapear corpos que transitam por lugares alheios à sua história de vida. O projeto de uma video instalação já conta com 13 videoperformances realizadas com 4 personagens, artistas brasileiras de origens distintas:
indígena (Luana Jimenez), africana (Joyce Prado), latina (Simone Pazzini) e oriental (Erika Kobayashi). Identidade, lugar, memória e
pertencimento são noções que na contemporaneidade demandam entrar no terreno fértil da mestiçagem, do contágio, impossível
de ser categorizado ou compreendido com nomenclaturas prévias ou pensamentos
dualistas. Este lugar pantanoso é necessariamente o da reinvenção de si e as
vivências dizem respeito à criação de modos de pensar e dar forma para
conteúdos pessoais na constante situação de sentir-se estrangeira e da necessidade de atualizar-se a cada contexto no tempo e espaço. A cada novo
lugar um novo corpo: uma nova realidade se impõe e demanda um novo entendimento do próprio corpo. Esta obra em andamento manipula e recria conteúdos pessoais,
mais afetivos que históricos, mais imaginados que familiarizados. Performar nossas próprias memórias é dar sentido a um sentimento contemporâneo
que exclui narrativas simples para mapear vivências e sentimentos em trânsito, em lugares que são também subjetivados por nós com imagens sempre atualizadas.
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domingo, 30 de novembro de 2014
sábado, 29 de novembro de 2014
cumplicidade
O texto que se segue foi
produzido a partir de um encontro em nosso campo de pesquisa – a cidade, e a
preocupação comum dos trabalhos é a resistência das subjetividades, no
contemporâneo, frente ao biotecnocontrole. O cultivo da deriva pela cidade é
uma de nossas posturas de pesquisa, e vêm produzindo encontros férteis para
pensar e desenvolver algumas preocupações teóricas, tais como a problematização
das políticas de controle que produzem modos de vida anestesiados e assépticos;
e a potencialização e produção de movimentos de resistência frente a essas
políticas. Por meio do relato de um desses
encontros, levanta-se aqui a cumplicidade despessoalizada no espaço urbano como
potência do habitar coletivo.
Laura Rosenbaum e Priscila Vescovi
Guattari e Rolnik consideram
que Modigliani permite, com suas obras, um acesso ao indizível e invisível.
Para eles, o artista produz uma ruptura no sensível e, com isso, outros
olhares. Para além e aquém da linguagem, o artista brinca com o impossível por
meio de uma nova suavidade, “invenção
de uma outra relação com o corpo” (2010, p. 341). Segundo os mesmos autores
“Modigliani não apenas mudou seu próprio modo de ver um rosto, mas também a
maneira coletiva de ver um rosto”. (p. 214).
Figura 1: Pintura de Modigliani.
MODIGLIANI,A. Portrait
of Lunia Czechowska. 1918. Óleo sobre tela. 80 × 52 cm. Disponível
em: Amedeo_modigliani_-_retrato_de_madame_hanka_zborowska_02.jpg
A arte é um dispositivo
potente para transformar, desfazer, pôr em dúvida as institucionalizações da
vida. Apostamos que esse dispositivo está não apenas nas obras penduradas nos
museus e que não apenas artistas reconhecidos como tais fazem uso dele.
Buscamos, na deriva urbana, artistas anônimos, efêmeros, aqueles que “são seus
próprios quadros, seus próprios livros, sua própria musica, sua própria obra[1]”.
Ainda que categoricamente
estruturada e discriminatória, a cidade nos convoca um sem número de
possibilidades, uma vez que é justamente neste movimento incessante de busca por
contágio, pela afirmação de uma ocupação do espaço urbano, que outras
sensibilidades se inventam, engendrando a dimensão produtiva do desejo.
O que
conta com as cidades de hoje é menos seus aspectos de infra-estrutura, de comunicação e de serviço do que o
fato de engendrarem, por meio de equipamentos materiais e imateriais a
existência humana sob todos os aspectos em que se queira considerá-la.
(GUATTARI apud CAIAFA, 2002, p. 37).
Há, na cidade, a existência
de uma dimensão coletiva da experiência. Por coletivo queremos afirmar o
público, não enquanto categoria – bloco fechado –, mas o que é atravessado pela
polis, política. Ao coletivo não confere rostos, nomes, identidades. São
vetores de subjetivação que perpassam o comum, essa “experiência coletiva em
que qualquer um se engaja ou em que estamos engajados pelo que em nós é
impessoal.” (PASSOS e BENEVIDES, 2012, p. 19).
Nessa dimensão, buscamos
vias potentes de transformação coletiva, que apontem à desautomatizacão das
subjetividades. Procuramos Modiglianis na cidade, produções desejantes que
enunciem outros sentidos para o habitar coletivo.
“As ruas são o apartamento do coletivo. O coletivo (...) vive, experimenta,
conhece e inventa tantas coisas entre as fachadas dos imóveis quanto o faz o
individuo no abrigo de suas quatro paredes”. (BENJAMIN apud JACQUES, 2001, p.
90).
Corpos que se recusam à
docilização frente ao biotecnocontrole. Corpos que teimam em inventar. Como
fazer para encontrá-los?
“é uma coisa muito simples (...) irrompe no cotidiano, pode
acontecer neste meio-dia ensolarado, agora, entre você e eu (...)".
(CORTÁZAR, 1978, p. 37)
***
Era um dia feio,
daqueles de céu sem cor. Não inspirava promessas de futuro, nem imersão no
passado. No tempo de espera por uma amiga na orla, esse tempo vazio,
intermediário, estávamos sentadas nos bancos da praia, visíveis para ele e suas
brincadeiras.
Um corpo
forte e marcado. Ele veio até nós. Insistia na força e nas marcas, destacando
os músculos, repetindo sua idade - Tenho
40 anos, não nasci em berço de ouro não, olha minhas mãos todas calejadas. E
as tatuagens, e as cicatrizes, que sugeriam uma vida vivida intensamente, delas
não falou.
Em sua
bicicleta - Minha, não. É nossa - de
passeio, podia oferecer uma voltinha a quem fosse amigo. Amigos fomos pela
imundície, pela sujeira - Acordar é
cagar, mijar, peidar… A gente é tudo porcaria, é assim que é a vida, não é? Concordávamos.
Ele confiou.
A
Camicreta é um triciclo com um banco muito bem desenhado acoplado na grande
garupa e alguns outros apetrechos, como guarda-sol, câmera filmadora (daquelas gopro, sabem? Mas não estava ligada a
nada!) e retrovisor. Ela teima em andar sozinha, às vezes, quase passando por
cima de nadadores de skate, de patins, caminhantes. Encontrões. Ele se desculpa
- não vi – e depois olha para nós com
uma cara sapeca. Ele e esse veículo teimoso guiam o
passeio pela orla de Camburi. Lá é famoso, fala com todos, é amigo de todos,
até perceber que algo não compactua com essa espécie de ética da (trans)ação
urbana. - Você sabe o que é um olhar? Ele foi mal-educado, esse cara, enjoado! Não
gosto de gente enjoada.
O espaço
da ciclovia é desconfortável, é institucionalizado demais, não há como
respeitá-lo. Onde já se viu só poder
andar onde está pintado de vermelho? Em nome do passeio é preciso percorrer
também a calçada, a rua, até quase cair na areia. Quase, por um triz. Por um
triz não se machuca, por um triz não atropela alguém. É, minhas amigas, a vida se faz de riscos...
É uma
bicicleta, ou melhor, um triciclo, mas não por isso não precisa de combustível.
Fica numa garrafa de plástico, dessas de esportista. Quer água de coco? Se diverte quando sentimos o gosto da vodca!
Passamos
pelo píer de iemanjá. Ele aponta para aquele balanço na árvore. Fui eu que coloquei aí, sabia? Pra me divertir,
pra fazer churrasco. Por que aqui? Por que não em sua casa, em seu prédio?
Ele dá um tempo de silêncio grave como quem espera que percebamos o absurdo de
nossa pergunta. Depois sorri e abraços.
Parecia
que seria impossível ir embora, mas ele não dependia de nós para continuar o
passeio, sentia que a rua era de um "nós" que estava, a todo momento,
porvir. Ele não cabe num relato, mas cabe na cidade. Faz-se caber, não sem
embate. Sua luta por abrir espaços inventivos e, sobretudo, de amizade, é de uma
intensidade encantadora e, porque não, artística. Mas ele não é uma vida que se
pode capturar, que se pode classificar. Sua luta é anônima, pelo
"nós". Não é de sua vida que estamos falando, Eu sou Ximenes da Rede Globo, eu sou ninguém, eu sou amigo de todo
mundo. É do ninguém que pode ser
amigo de todo mundo, é da Camicreta que não é veículo de ninguém, e por isso
pode ser nosso.
Figura 2: Esculturas de Antony Gormley. GORMLEY,
A. Field of the britsh isles. Esculturas
em terracota, tamanho variado.
Aproximadamente 40000 elementos com 8-26 cm de altura. Exposição realizada no
Museum of Modern Art, Dublin, Irlanda, 1993. Disponível em: http://www.antonygormley.com/uploads/images/4e11a88c31081.jpg
Referências:
CAIAFA, Janice. Viajar
e as cidades. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2002.
CORTAZAR, Julio In
BERMEJO, E. Conversas com Cortázar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed, 2002.
GUATARRI, F. e ROLNIK,
S. Micropolítica: Cartografias do desejo. Petrópolis: Editora Vozes,
2010.
JACQUES, Paola B. Estética
da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio
de Janeiro: Ed. Casa da Palavra, 2001.
PASSOS, E. e
BENEVIDES, R. Por uma política da narratividade. In PASSOS, E; KASTRUP,V;
ESCOSSIA,L (org). Pistas do método da cartografia. Porto Alegre: Sulina,
2012.
[1] “você não vai vê-los direito/pois onde a
multidão estiver/eles/não estão./estes esquisitos, não/são muitos/mas deles/vêm/os
poucos/bons quadros/as poucas/boas sinfonias/os poucos/bons livros/e
outras/obras./e dos/melhores destes/estranhos/talvez/nada./eles são/seus
próprios/quadros/seus próprios/livros/sua própria/musica/sua própria/obra./as
vezes acho/que os/vejo-digamos/um certo/senhor/sentado num/certo banco/de um
certo/jeito/ou/um rosto rápido/virado pro outro/lado/no automóvel/que
passam/ou/ha um certo movimento/das mãos/de um empacotador
ou/empacotadora/enquanto empacota/as compras/do supermercado./as vezes/e até
mesmo alguém/com quem você/viveu/por um/tempo-/você ira notar/um/rápido
aclarar/no olhar/nunca visto/neles/antes./as vezes/você só irá notar/as
suas/existências/subitamente/em/vívidas/recordações/alguns meses/alguns
anos/apos eles terem/partido./eu me lembro/de um/ tal-/ele tinha uns/20
anos/bêbado às/dez da manhã/olhando para um/espelho/partido/de Nova
Orleans./rosto sonhando/contra os/muros/do mundo/para onde/eu/fui? (Os mais
fortes dos estranhos, Charles Bukowski).
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Narrar o inútil: caminhos expressivos entre clínica, arte e vida.
Após o café e a chegada
de um amigo, o homem resolve sair de casa. Decidido, ele solicita a abertura do
portão, substituindo os balbucios de todo dia por voz clara e assertiva.
Na rua, caminha com
dificuldade, mas não desanima. Transforma um trajeto simples e rápido,
ordinário, em demorado saboreio de cumprimentos, toques nos muros das casas e
vento.
E num ritmo contrário ao
frenesi de buzinas e gente apressada, ele encontra uma praça deserta. Ali, o caminhar
se faz ainda mais lento e o corpo vai se curvando vagarosamente ao encontro da
grama.
Com fluidez e maestria,
abraça o chão verde, luminoso sob o sol das dez. E, feito lagarto, rasteja até
a fronteira da praça com a rua. De lado, que nem César ou Adriano, observa a
vida de novo ângulo, e conta:
4 carros;
2 motos;
3 casas;
1 mulher;
3 árvores.
Prossegue no inventário
das coisas todas.
Revigorado, inclui a si
e ao amigo no cômputo do espólio.
E, por fim, se levanta.
Em seu corpo um véu de
cal, grama e sujeira.
Já era hora do almoço.
Este trabalho versa sobre as relações de moradores de
residências terapêuticas, ex-internos de um hospital psiquiátrico, com as
matérias da cidade. Após anos de internamento e de vida institucionalizada,
propomos caminhar com eles, em parceria, na construção de um novo
cotidiano/corpo que vai se traçando entre ruas, praças e parques.
Diante deste desafio apostamos em narrativas do ínfimo, filigranas
de um cotidiano que compõem paisagens de ricas pequenezas. Longe dos grandes
discursos que proclamam a verdade da loucura ou qualquer outra verdade, vemos
nestas curtas histórias alguns vestígios para a composição de novos caminhos
que, tomando a intercessão entre arte, clínica e vida, misturam-nas e as confundem
até o ponto de não mais podermos distingui-las.
Narrar o “inútil” comporta, entretanto, um evidente
paradoxo. Se cremos ser importante trazer luz às pequenas histórias do
cotidiano, não estaríamos provendo-as de uma necessária utilidade? Nossa resposta
é afirmativa: o “inútil” é de fato bastante útil. Contudo, reforçamos a aposta
ética de que o paradoxo acima é a maior expressão: em um mundo povoado por
finalidades pré-concebidas, utilitarismos ordinários, tecnicismos sufocantes,
especialismos fragmentados e “causas
finais” de todo tipo, não seria importante reabilitar a experiência singular de
encontros anônimos, pequenos, menores, “inúteis”?
Acreditamos que a perspectiva aqui narrada possa contribuir
para a invenção de novos modos de fazer a vida, de expressá-la: um fazer
clínico, artístico e vital. As intercessões com autores como Walter Benjamin,
Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari constituem as ferramentas por
meio das quais viemos trilhando os caminhos percorridos até o momento. Nestes
rumos, temos a impressão leve e discreta da construção de trilhas fugitivas,
nômades, abertas ao jogo de forças que cunha nossas precárias identidades.
No parque éramos muitos.
Espalhados, diminuíamos o espaço entre nós e o mundo de cores, flores, folhas,
terra. Mas, no instante de um cuidado, noto uma ausência. Nada de pânico,
penso. Espero.
Afasto-me de meus
companheiros e vejo um grupo de crianças. Muitas, barulhentas, brincalhonas.
Lancheiras abertas, hora do lanche. Em pé altivamente estava a professora,
explicando com gestos imensos e voz alta algum sei-lá-o-quê. Em meio às
crianças, sem cerimônia, lá estava ele acocorado comendo um pão.
Chego na hora. “Quem é
você?” Pergunta a professora ao novo “aluno”. Ele sorri aquele sorriso sem
dentes e cheio de cara. Eu me aproximo e a pergunta se dirige a mim: “quem é
ele?”.
“Ele é o Chico e eu sou
o Mario”, respondo.
“Sejam bem-vindos Chico
e Mario”, ela diz. E alguma criança me oferece um pão.
Chico,
acocorado em meio às crianças, vive um encontro único e precioso; as crianças,
surpreendidas por uma visita inesperada, também experimentam um riso e uma
curiosidade advindas do novo, ou, se preferirmos, da diferença. E o pão que nos
é oferecido talvez seja um convite a explorar as possibilidades estéticas (e
também éticas e políticas) dos fazeres da vida.
Bibliografia:
BENJAMIN,
W. Obras Escolhidas: magia e técnica,
arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
DELEUZE,
G. Conversações. São Paulo: Editora 34,
2010.
FOUCAULT,
M. Ditos & Escritos V: ética,
sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
GUATTARI,
F. Caosmose: um novo paradigma
estético. São Paulo: Editora 34, 2012.
RANCIÉRE,
J. A partilha do sensível: estética e
política. São Paulo: Editora 34, 2014.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
o caminhar e a prática fotográfica: ensaio no espaço urbano
![]() |
http://www.sobrepeleepedra.tumblr.com |
O ensaio fotográfico sobre
pele e pedra que estará exposto durante o Corpocidade4 tem como método a
prática da livre caminhada no espaço urbano associada à fotografia. As fotografias foram
produzidas principalmente em São Paulo, minha cidade natal, mas também outras
metrópoles brasileiras e latino-americanas.
O trabalho fundamenta-se numa aproximação subjetiva da cidade e as
imagens resultantes de tal prática, apesar de levantarem questões sobre a vida
na metrópole, formulam-se mais como experiência sensível - visual e corporal –
que conceitual. Não há, portanto, um projeto prévio, de natureza documental ou
serial, que determina qual será o assunto ou o recorte realizado, apenas um
método de aproximação da realidade. Para a fotógrafa Dorothea Lange, “saber de
antemão o que se está procurando nos faz fotografar apenas nossas próprias
concepções prévias, o que é muito limitador”. A utilização do ensaio
fotográfico como forma de discurso, e da livre caminhada como método de
trabalho são ambos estados errantes de busca, percepção e realização. Tal método de trabalho parte, portanto, da
compreensão de que a subjetividade é característica fundamental do processo
artístico, por garantir plena liberdade de busca.
Do ponto de vista corporal, a prática do caminhar afirma-se em
oposição à pacificação do corpo no cotidiano da cidade moderna. Para Richard
Sennet, a busca pela sensação de desenraizamento seria fundamental no sentido
de romper com as formas de experiência sensíveis modernas: a segurança e o
conforto. No mesmo sentido, Rebeca Solnit irá se
referir ao corpo pesquisado pela teoria pós-moderna: “The body described again
and again in postmodern theory does nor sufer under the elements, encounter
other species, experience primal fear or much in the way of exhilaration, or
train its muscle to the utmost. In sum, it doesn’t engage in physical endeavor
or spend time out of doors. The very term ‘the body’, so often used by
postmodernists seems to speak of a passive object, and that body appears most
often laid out upon the examining table or in bed.” (SOLNIT, p.28).
Paralelamente a sobre pele e
pedra, venho desenvolvendo desde o início deste ano o ensaio linha
vermelha, que trabalha a questão da corporeidade cotidiana de forma mais
explícita.
![]() |
www.linha-vermelha.tumblr.com |
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Habitar o movimento: quando o corpo se torna lugar.
A cidade se defini hoje através
de uma coreografia de fluxos e fixos. No habitar contemporâneo, as trocas, os
encontros não acontecem mais no lugar concreto da cidade. A
"ditatura" econômica da cidade eficiente deu toda adequação ao
desenvolvimento de um espaço virtual, feito de fluxos infinitos. Essas novas
comutações caracterizam hoje a vida coletiva. Nesse afastamento da terra é
preciso de um espaço aproximativo, flexível. Ele não tem mais limites; que
sejam espaciais ou temporais, nos andamos num espaço indefinido, homogeneizado,
onde o unitário conjunto não é mais ator da historia ou da vida coletiva. Os
lugares da cidade parecem não existir mais. Será possível viver sem lugar ?
Podemos evoluir num espaço sem memória nem sonhos, um espaço que só acontece no
instante ?
Nesse “espaço-sem-lugar”
a materialidade absolutamente primeira resiste: o nosso Corpo. Numa mobilidade
constante, o único lugar que permanece é o corpo. É ele que se torna lugar e
ator principal de nosso enraizamento nos territórios. Assim nos habitamos no
movimento através do corpo.
O cidadão do século XXI
voltou a ser Uma espécie de nômade da idade-média: que vive em movimento. Com
duas diferenças consideráveis, ele tem todos os tipos de meios de transporte à
sua disposição e não conta mais em quilômetros, mas em minutos a sua relação
com o espaço real ao seu redor. Pela magia dos aparelhos, ele pode estar aqui e
ali realizando assim o velho sonho da ubiquidade. Quando as comunicações portáteis
associam-se com o corpo humano, é o homem que se torna meio de circulação. Se a
existência do indivíduo encontra-se em seu projeto (o habitar seria a
capacidade do ser humano de se projetar fora do seu contexto físico imediato ou
distante, o corpo sendo a matriz dessa ação e desse projeto ) é preciso olhar
para o processo, para não tomar o seu movimento como o único objetivo. Assim o
ser humano habitante não é só um corpo programado que reagiria como um
executante; ele é lugar da sua habitação por se acomodar da transição do
eventual e do imprevisto num resultado só. Nossa habitação é a ilustração
espaço-temporal da nossa presença revelada na nossa mobilidade criativa.
Como a descaracterização
do espaço, às vezes, o corpo submete-se também a essa perda de identidade.
Assim o habitante fica sempre dividido entre a necessidade de ser e a
necessidade de parecer (pare-ser). Porém em culturas como no Rio de Janeiro, a
troca, o encontro com o outro e a sociedade o Corpo permanece a ser ator
principal de nosso habitar. Como o corpo se torna lugar e ator de vida coletiva
na cidade contemporânea ?
A dança ocupa a cidade: reflexões a partir do Bicho Caçador
O objeto tomado para o diálogo e análise é a manifestação anual do Bicho
Caçador, criada e realizada pelos habitantes do bairro Porto de Trás, na cidade
de Itacaré (BA). Partindo da minha própria experiência de coreógrafa mobilizada
por questões de segregação social, o estudo se desenvolve articulando
depoimentos coletados e dados históricos contextuais, com as noções de
coimplicação entre corpo e ambiente (Britto, 2008), corpografia urbana (Britto
e Jacques, 2008, 2010) e profanação (Agamben, 2007), para mostrar como o Bicho
Caçador transgride (desde o nome) as regras de convívio e ocupação do espaço
urbano, pelo seu uso dessacralizador da segregação espacial, sócio-econômica e
étnico-cultural vigentes na cidade. O que poderia querer dizer: profanar a
dança e o espaço público? Será então,
uma das possibilidades as inovações na forma de representação e reinvidicações
deste campo?Pretende-se, desse modo, sugerir que a dança pode ser um tipo de
ação crítica, de desvio ou resistência aos modelos hegemônicos de pensamento e
comportamento promotores da espetacularização – papel que denominaremos de
ativismo político.
[...]Muitos pensam que o Bicho Caçador tem só a conotação da
natureza, entre o caçador e o bicho, estes personagens. Para mim vai além. Vejo
uma relação ancestral, até sobre as histórias também dos escravos, do homem
negro sendo escravizado, acho que tem este significado, que está intrínseco,
que fica mais subjetivo, pois é uma manifestação forte, e por trás da cultura,
da dança e da brincadeira existe um pouco de protesto. Quando cheguei aqui eu
não tinha idéia da dimensão da dificuldade de aceitação das pessoas daqui com
as pessoas de fora. Eu não percebia isto. Com o tempo, eu fui percebendo, sim
que existe uma dificuldade de interação [...] (Informação Verbal)[1]
[...]Após a saída do Bicho Caçador, eu e meus amigos ficávamos
brincando; e eu sempre escolhia o caçador para dançar e com isto fui criando um
modo de dançar. Aprendi a dançar com Buzano (o outro caçador), e quando tinha
uns 20 anos comecei a dividir com ele o caçador. E cada um tem sua
característica de dançar, eu mesmo vou mais para o ataque, vou para cima. O
Buzano não, vai muito para o chão[...](depoimento de Arionilson Sá – um dos
caçadores)
[...]Na
improvisação, o sentido autoral da ideia de composição deslocou-se do sujeito
para a relação que ele estabelece com o mundo em que vive. Corpo, dança e mundo
são coautores involuntários de suas respectivas identidades. O entendimento da
dança, deslocado para o eixo da instabilidade, reorganiza nossos conceitos
estabilizados: põe no corpo o que estava na coreografia: a dança; põe na dança
o que estava no corpo: a identidade; e põe na relação entre todos o que estava
em cada um: a autoria. Diluir na vida o sujeito autoral é a ética deste
registro estético. (BRITTO, 2008, pg. 109)
[...] E não é este nome, e
de um certo tempo para cá que modificou, e coloram este bicho caçador. O bicho
não caça, ele é caçado. O caçador é um
homem e não o bicho. Porque o Bicho Caçador é um bicho que come um outro bicho.[...]
( Informação Verbal)[2]
[...] É um bairro que não sinto vontade de sair, pois você ainda pode
sentar na porta, conversar com as pessoas; é um bairro seguro, você pode deixar
a porta aberta, é um lugar que as crianças brincam à vontade. Há uma união no
bairro, muitos dizem que já acabou, mas eu vejo que ela ainda existe, e é isso
que difere dos outros bairros[...][3]
Pretende-se mostrar que as danças criadas como manifestações populares de grupos sociais espontaneamente organizados, que ocorrem na rua e se baseiam nas suas experiências cotidianas dos espaços públicos em que vivem, produzem um tipo de transgressão das normas tanto de organização urbanística quanto da dinâmica sócio-urbana vigente e da própria prática artística coreográfica, na medida em que subvertem a lógica segregatória e espetacular que se impõe atualmente como modelo hegemônico de cidade, de arte e inclusive de corporalidade (Britto e Jacques, 2008, 2010).
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